Descubra os encantos de Registro, a capital do chá

29 maio 19
Descubra os encantos de Registro, a capital do chá

Quem conhece a história do Brasil fortalecida pelo café, talvez não imagina que ele foi um grande produtor e exportador de chá na década de 40 e que deixou vestígios importantes para os dias atuais. Essa é uma das outras grandes histórias que você pode conhecer na Rota do Chá, no vale do ribeira.

Conhecida como a “Capital do Chá” no Brasil, a cidade de Registro, localizada no Estado de São Paulo, ganhou prestígio turístico para os amantes e pesquisadores da bebida.

Há 3 anos, surgiu a Rota do Chá, um evento organizado pela Escola de Chá Embaú e Infusorina, que criaram um roteiro pelas fazendas de chás e fábricas, além de espaços históricos que fazem parte da cultura dos chazais.

O objetivo é apresentar para as pessoas o tesouro nacional construído pelo chá.

Para nós, que estamos habituados com processos industrializados, acompanhar a produção do chá é quase como um choque cultural.

Há um envolvimento muito forte das famílias em todo o processo, do plantio da Camellia sinensis à colheita e beneficiamento.

Mas muito além do envolvimento físico, é o afetivo. Para muitas pessoas, o chá é parte importante para a história da família, uma continuidade da luta e esforço dos avós e antepassados.

E para a cultura nipônica, o respeito e a memória são valores muito importantes.

Muito antes da rota do chá

No século XX foi o início da imigração japonesa no Brasil. Eles foram enviados com a promessa de riqueza e uma nova vida.

A realidade foi outra, a terra não era tão fértil quanto imaginada e as famílias precisaram se adaptar ao cenário difícil que se deparam, com choque de cultura e economia, uma terra em que poucas plantas se adaptavam e a falta de estrutura.

Com a introdução das plantações de chá no país, por volta de 1940 , houve uma importante fonte de renda para os imigrantes e um cenário econômico voltado para a produção especializada.

O Vale da Ribeira, como a região é conhecida chegou a ter 5 mil hectares de cultivo, 600 produtos e cerca de 40 indústrias de processamento do chá, voltadas exclusivamente para a exportação.

Havia inclusive, suporte e incentivos comerciais do governo para impulsionar a produção da erva.

No entanto, no início dos anos 1990, diversos fatores econômicos como o plano Collor, a chegada da moeda Real e a falta de atualização de equipamentos e novos padrões qualidade das fábricas contribuíram para a crise na indústria de chás.

O impacto foi tão forte que causou o fechamento gradual da maioria das empresas.

Hoje, quase 30 anos após a crise dos chazais, algumas famílias resgataram a tradição e voltaram a investir suas energias e expectativas na produção de chá. E tem dado muito certo.

As marcas de chá do Vale da Ribeira

Família Yamamaro

Um dos nomes que fizeram parte do boom econômico do chá no Brasil foi a Yamamaro, que manteve sua plantação ativa até 1996.

Depois, com a crise econômica nacional e o fim do incentivo comercial na região, a fazenda encerrou suas atividades, buscando outras fontes de renda.

Em 2015, decidiram reativar o cultivo da Camellia sinensis assamica, mas de um jeito inovador: o chá sombreado.

É um modelo agroflorestal, onde em um terreno são preservadas as árvores nativas da Mata Atlântica, como a Juçara e retirada apenas a vegetação baixa, que impede o cultivo da planta do chá.

Esse modelo é um projeto totalmente experimental e recebe apoio de entidades públicas do meio ambiente, que dão suporte técnico aos produtores.

O chá Yamamaro

Chá agroflorestal

Da plantação para a prateleira, a Yamamaro é uma das marcas de chás mais recentes do Vale da Ribeira e um dos mais diferentes, devido ao método de plantio.

Disponível nas variedades verde e preto, a produção do chá não leva nenhum tipo de insumo químico ou agrotóxico. Ou seja, é totalmente agroecológico.

A família Amaya

É uma das mais antigas famílias produtoras de chá do Brasil, que chegaram em 1919 no Rio de Janeiro e logo depois se instalaram no Vale da Ribeira, que até então era uma região produtora de cana de açúcar.

Hoje, residência que pertenceu aos primeiros integrantes da família é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e um ponto turístico na região.

São mais de 80 anos de história e de lá para cá, muita coisa mudou.

Hoje, a Amaya produz em escala industrial, principalmente no método CTC e uma das principais características é a participação familiar em tudo, uma tradição de amor e negócios passada de geração em geração.

Os chás Amaya

Chá Amaya

Os chás produzidos pela Amaya possuem um estilo japonês único, de aroma que remete a algas e peixes, que são excelentes inclusive, para fazer no método cold brew.

Eles estão disponíveis em folhas soltas (granel) e embalagem de saquinho. Ou seja, disponível para todo os gostos.

A família Shimada

Você já ouviu falar no chá da vovó? Acredite, depois que você conhece, não esquece. Para entender melhor essa história, é preciso conhecer a Elizabeth Ume Shimada, uma senhora de 91 anos que inspira vitalidade e alegria.

Aos 5 anos de idade, ela plantou a primeira muda de chá. Mas foi aos 87 que decidiu resgatar a tradição e abriu a sua própria fábrica artesanal, para produzir o chá preto, com a ajuda dos filhos, netos e demais familiares.

Comprou equipamentos antigos, de fábricas desativadas e reativou a plantação e produção dos chás, participando ativamente de todas as etapas e decisões.

Hoje, quem está à frente da empresa é sua família mais velha, Terezinha Shimada, mas a dona Elizabeth continua participando das decisões e no que for preciso.

E assim surgiu o obatiaan, que em português significa chá da vovó. Ela é quem recebe turistas e explica com muito amor e dedicação, o passo a passo para produzir seus chás. É uma adorável inspiração sobre a história do chá no país.

O chá da vovó — obaatian

O chá da vovó Obaatian

Atualmente, são produzidos 60 quilos por mês na fábrica da família Shimada. O chá da vovó é orgânico e vendido para o mercado nacional.

A especialidade do obatiaan são os chás branco e preto, feitos de acordo com a tradição e totalmente artesanais.

Seus chazais são extensos o suficiente para impressionar, inclusive em história, com arbustos vivos com mais de 50 anos.

Por isso, participar da Rota do Chá é uma experiência sensorial indescritível.

Além de conhecer de perto a planta que dá origem à bebida mais consumida do mundo, você tem a oportunidade de conhecer e se emocionar com um pedaço da história do Brasil, que se mistura com o Japão, construída por mãos e coragem de pessoas dedicadas a transformar um sonho em realidade.